A magnífica Coruja de Madagáscar



A magnífica Coruja de Madagáscar

Não sei se ele a abandonou, ou se foi ela quem o deixou, não, eu não sei.

Não sei como foi o início da história deles, como se conheceram, onde se conheceram, como foi o primeiro olhar, a primeira fala, o primeiro beijo...

A verdade é que sei muito pouco sobre isso, e muito pouco sobre eles.

Minhas memórias afetivas são raras (há um certo exagero nisso), especialmente aquelas da infância (mas não nisso!).

O que "sei" desta história é o que vi e ouvi em um filme: "Antes eu assistia apenas o começo e o fim. O começo para saber um pouco da história, e o fim, ah, o fim, porque sempre é feliz!".

Ela era jovem e bonita, ambos eram jovens. 

Ela chamava a atenção, despertava o interesse de muitos homens por causa de sua silhueta escultural.

Ele era o boa praça, amigo de todos, mas um homem de poucos amigos, embora não soubesse disso, sua ingenuidade não o permitia enxergar além das circunstâncias.

Ambos temperamentais, cada um a sua espécie e com sua peculiaridade.

Ela ariana, ele taurino. 

Ele tinha 5 anos de vida a mais, mas "viveu" aproximadamente a metade dos dias de vida dela.

O que sei é que os pais dele moravam na penúltima residência da parte debaixo de uma rua cujo o número era 21, enquanto a mãe e o pai dela habitavam a segunda casa de cima para baixo desta mesma rua por número 91.

Deles nasceram o fruto, fruto de uma paixão ardente, calorosa, e rápida, muito rápida, quase como uma neblina, mas tão devastadora quanto um temporal.

Lembra do filme que citei uma fala?

Pronto, aí vai outra: "O que é mais engraçado, ou louco? Sonhar todos os dias, mas não se lembrar dos sonhos ao acordar? Ou nunca sonhar?"

As vezes sou tomado por um pouco disso, tenho sonhos dos quais não me recordo, não me lembro, mesmo com muito esforço, toda a memória que tenho é nada, e embora o nada seja algo, nestes sonhos, o nada é apenas um vazio.

Em outros momentos a sensação que tenho é de nunca ter sonhado, ou teria eu o(s) meu(s) sonho(s) roubado(s)?

Quem abandonou quem eu não sei, se é que teve um abandono, teve?

Isso também não, e provavelmente eu nunca saberei. Assim como não saberei o que os uniram e o que os levaram a conceber um fruto, apenas desejo efêmero? Um tesão incontrolável? Um gozo incontrolável?

Há perguntas que nunca terão respostas. Cabe a mim fazê-las e buscar tais respostas, ainda que eu não as encontre, ou calar-me sobre tudo isso.

Ele o levou consigo ainda criança, o presenteou diversas vezes e de diversas maneiras, talvez uma forma de suprir a ausência durante a semana tomada pelas muitas viagens a trabalho. 

Aos cuidados da Diva, de uma verdadeira Diva seu pequeno ficava, a este pequeno não faltou amor e carinho da parte desta senhora, mas as lembranças são vagas, isso também não sei o porquê.

Há 25 anos ele se foi, após uma noite festiva de sexta-feira, familiares que eram amigos, estes sim, até hoje o são, apesar do tempo, do espaço, da distância.

O recanto do sol, naquela noite de saideira se tornou uma noite sem lua, ou uma lua vermelha, mas não por um movimento da natureza, e sim pelo banho de sangue, esta é a parte triste da história, que faz parte do começo da minha vida.

Se a vida fosse dividida em quatro partes, ou em quatro estações, eu diria que a infância foi o "quarto excluído" daquela criança, assim como seu pai ele tinha muitos amigos, mas não tinha amigo algum, pois a ingenuidade ele herdou de seu pai, aquele costume de acreditar em todo mundo e de que todos seriam honestos.

34 anos em quatro pedaços, ou em quatro estações: inverno, primavera, verão e outono, ou 8 anos e meio para cada estação, para cada quarto.

Sem dúvida alguma as maiores tragédias, as dores mais profundas e intensas foram sentidas e vividas no primeiro quarto de vida, na primeira estação da vida.

A magnífica coruja de Madagáscar, bela, símbolo de sabedoria, podem fazer um movimento de 360 graus com seus crânios.

Possuem visão além do alcance ao ponto de enxergarem mesmo com pouquíssima luz, são donas de ouvidos potentes que escutam até 50 vezes mais do que eu e qualquer ser humano vivente e sua audição é o seu principal aliado em sua defesa e caça. 

Também são canibais, se alimentam de outras espécies, e não temem quem quer que seja. 

Historicamente já sofreram por causa da ignorância humana que mataram milhares ao associarem estes belos animais aos feitiços e bruxarias.

E até entre elas há um código de normas ou regras, para que tenha relação sexual, o macho e a fêmea, ele tem de oferecer a ela uma presa, se ela ficar satisfeita eles acasalam. Caso contrário, não é não, entendeu?!

É óbvio que estas não são características exclusivas da coruja de Madagáscar, mas das corujas em geral, das poucas mais de 200 espécies.

A criança fruto daquela paixão meteórica talvez tenha por anseio se tornar um homem com algumas características parecidas com a(s) desta(s) coruja(s), não tanto, e não mais pela beleza, nem mesmo pelo instinto animalesco de devorar outras espécies, mas de deixar a ingenuidade alimentando a pureza, de enxergar além do que se vê, de ouvir atentamente como quem sente em seu próprio corpo a fala do outro, adquirindo a capacidade de não temer mais coisas, circunstâncias e os abandonos da infância e da vida. 

Ele se foi no primeiro quarto da vida, mas ela reapareceu no terceiro quarto, de um extremo a outro, cada um ao seu tempo, cada um com seu devaneio e loucura, cada qual com sua coloração e temperatura. 

Não, definitivamente não fui amigo nem de um e nem do outro. 

Eles tampouco foram meus amigos, também não fomos inimigos, mas tal qual a coruja sem penas que se torna a magnífica de Madagáscar vou indo, neste ciclo contínuo de descobertas sobre eles e sobre mim.

Entre abandonos e reencontros, mesmo com derramamento de sangue e morte, a história tem seus momentos bonitos, e de algum modo, um final feliz...

João Vicente Ferreira Neto

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